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História do Judô no Mundo

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Jigoro Kano (1860-1939) – O início da vida e o conhecimento das artes marciais

No dia 28 de outubro de 1862, nascia em Mikage, aquele que viria a ser tornar um dos três grandes mestres das artes marciais, Jigoro Kano.

Pelo lado de seu pai, Mareshiba, Kano vinha de uma família de diversos ilustres sacerdotes xintoístas (mestres budistas e intelectuais confucionistas). Sua mãe, Sadoko, vinha de um dos principais clãs produtores de saquê (produziam a famosa marca Kiku-Masamune). Depois da morte de sua mãe, Sadoko, em 1869, Mareshiba, pai de Kano, se tornava empresário e funcionário do governo e mudou-se com a família para a capital Tóquio. Para Jigoro Kano, até então jovem na época, teve com primeira impressão da capital japonesa os ronin andando afetadamente pelas ruas, exibindo com orgulho suas duas espadas. Os ronins eram uma espécie de samurai, não eram considerados como tal, porém, portavam um darsho, que é o símbolo máximo da casta samurai.

Matriculado em uma escola particular, Kano estudou inglês, e então em 1873, entrou na Ikuei Gijuku. No dormitório que ficava na escola, o educado Kano era submetido a duros trotes por alunos mais velhos, contra os quais se achava indefeso. Foi nesta época que ele ouviu falar no Jiu-Jitsu, a arte marcial que possibilitava que uma força física mais suave controlasse um forte ataque.

Durante certo tempo Kano não conseguiu praticar bem o jiu-jitsu, mas procurou se fortalecer, inclusive, praticando beisebol, esporte recém introduzido no Japão. Por um tempo, aquele que viria a se tornar um dos grandes mestres das artes marciais, tentou até estudar astronomia. Isso ocorreu na Universidade de Tókio em 1877, e lá, também se viu confrontado por provocadores e valentões. Foi então que ficou mais determinado a fazer o jiu-jitsu.

Sua persistência em encontrar um bom instrutor ocorreu no mesmo ano. Hachinosuke Fukuda (1829-1880) tinha um estilo chamado Teshin Shin’yo Ryu. O ryu, estabelecido por Mataemon Iso (falecido em 1862) era comparativamente um estilo novo de jiu-jitsu, que enfatizava atemi (golpes em pontos fracos anatômicos) e técnicas de agarramento.
Kano passou a praticar com Fukuda bastante entusiasmado. Treinava até sozinho com um bastão pesado de ferro que Fukuda havia lhe dado. Nesta época, Kano também havia estudado o bojutso, uma arte marcial com o uso de bastão.

Estudioso e curioso, kano perguntava tudo a Fukuda para lhe detalhar como eram praticados os golpes, o correto ângulo de entrada, etc. Na maioria das vezes, a reposta do professor era arremessando Kano no chão para que aprendesse através da vivência própria.

Destinado a estudar e conhecer mais sobre técnicas de projeção, Kano decidiu visitar a biblioteca de Tóquio em busca do que os livros ocidentais de luta (greco-romana) tinham a lhe oferecer. Descobriu aí uma técnica que mais tarde a chamou de Kata-guruma (rodada de ombros) que acabou empregando contra Fukushima, um lutador de sumo, conseguindo bons resultados.

Em maio de 1879, Kano e Fukushima fizeram parte de um grupo para fazer uma exibição de artes marciais ao ex-presidente Grant, dos Estados Unidos, quando ele visitou o Japão. A demonstração havia sido um sucesso e foi bastante divulgada pela imprensa norte-americana.

Infelizmente o instrutor de Kano, Fukuda, faleceu pouco depois da apresentação aos 52 anos.

Decidido a se aprofundar com seus estudos de Tenshin Shi’nyo Ryu com Masamoto Iso (1818-1881) que tinha mais de 60 anos. Masamoto não praticava mais o randori (competição livre), mas ainda era considerado um mestre de kata (quedas). Com isso Kano adquiriu grande experiência em kata e também em randori.

Em 1881, quando Masamoto morreu, Kano ficou mais uma vez sem professor. Foi então treinar com Tsunetoshi Iikubo (1835-1889), do Kito Ryu, arte mais focada em nage-waza (técnicas de arremesso). Iikubo foi o mais experimentado mestre de artes marciais com quem Kano treinou. Em suas memórias, Kano registrou: “De mestre Fukuda, aprendi o que o trabalho da minha vida ia ser; de mestre Masamoto, aprendi a natureza sutil do kata; e de mestre Iikubo, aprendi técnicas variadas e a importância do timing, o senso de tempo.”

 

 

A criação da Kodokan –  Nasce o estilo judô kodokan

Em fevereiro de 1882, Kano mudou-se para Eisho-ji, um pequeno templo budista da seita Jodo, na seção Shimo-tani de Tóquio.

Ainda jovem, com 22 anos, ele fundou o Kodokan, “Instituto para o Estudo do Caminho.”

Kano estava apaixonado pelo jiu-jitsu e acreditava que ele deveria ser preservado como um tesouro cultural japonês; mas também acreditava que ele deveria ser adaptado aos tempos modernos.

O termo judô significa “o caminho da suavidade”, mas na Kodokan, Kano interpretou como “o mais eficiente uso da energia”.

Aos poucos a Kodokan foi crescendo, passando por diversos lugares. Mudou-se várias vezes até que abriu um dojo na cidade de Kojimachi. O mestre Iikubo acompanhava Kano o visitando frequentemente, ensinando-o durante o primeiro semestre de 1883. Certo dia, Kano percebeu qual era a chave do judô – “Se meu parceiro puxa, eu empurro; se ele empurra, eu puxo”. A partir daí, o talentoso Jigoro Kano estava habilitado a competir em igualdade de condições.

Em 1885, o número de alunos cresceu, chegando a 54 e alguns estrangeiros começaram a solicitar instruções. Nesta época foi criado um sistema de graduação: três níveis básicos (kyu) e três níveis avançados (dan). Jojiro Tomita (1865-1937) e Shiro Saigo (1866-1922) foram os dois primeiros praticantes a serem agraciados com o grau de shodan.

Em 1886, Kano mudou-se novamente de residência, dessa vez para Fujimicho, onde pode montar um espaço com 40 esteiras onde 99 alunos matricularam-se nesse ano.

Nos anos seguintes, membros da Kodokan começaram a se destacar nos torneios abertos patrocinados pela Agência Nacional de Polícia.

Em 1888, Kano, juntamente com o reverendo T. Lindsay, apresentou um artigo sobre o jiu-jitsu aos membros da Sociedade Asiática do Japão, diplomatas estrangeiros, professores e homens de negócios que falavam inglês. Neste artigo mostrava que o jiu-jitsu teria uma origem puramente nativa.

Por volta de 1889 quando Kano mudou-se novamente, ele tinha mais de 1.500 alunos de tempo integrais e diversas filiais do Kodokan espalhados pela capital japonesa, Tóquio. O judô Kodokan de Kano estava caminhando para assumir uma posição primordial no mundo das artes marciais do Japão moderno.

Em agosto de 1889, Kano embarcava em uma longa viagem de inspeção a instituições educacionais na Europa, deixando seus discípulos mais antigos, Saigo e Tomita, encarregados do Kodokan. Acompanhando por um funcionário da Agência da Casa Imperial, partiu de Yokohama em 15 de setembro de 1889, passando por Shangai, na China, seguindo mais tarde à Europa passando por diversos países do continente. Na volta parou em Cairo, no Egito, para conhecer as pirâmides.

Em 1891 depois da volta de sua viagem, aos 31 anos de idade, Kano casou-se com Sumako Takezoe. Um mês depois teve que deixar sua esposa, pois havia assumido o posto de diretor da Quinta Escola Ginasial, na remota Kuma-moto.

Pouco depois Kano retornou a Tóquio onde assumiu cargo de diretor na Escola Normal Superior, da capital japonesa, encontrando sua esposa, Sumako, e no final do ano, nasceu sua primeira filha. O casal teve mais filhos, oito ao todo, sendo cinco meninas e três meninos.

Em 1894, a Guerra Sino-japonesa havia iniciado e com ela o judô acabou se tornando mais popular graças a subseqüente febre guerreira dos japoneses.

Em 1895, a primeira versão gokyo no waza, os cinco grupos de instrução, foi oficialmente introduzido no Kodokan. Cada grupo consistia de oito técnicas representativas: varreduras de perna, arremessos e derrubadas de corpo.

Em 1902, Kano visitou a China. No seu retorno ao Japão, ele expandiu a academia para estudantes de intercâmbio chineses aonde muitos vieram a iniciar o aprendizado do judô no Kodokan durante sua estada em Tóquio.

 

Em 1906, O Kodokan expandiu-se de novo, dessa vez para um novo dojo de 207 esteiras, em Shimo-Tomisaka-cho. Nesta época o judogi (uniforme de treino que chamamos de kimono) foi padronizado na forma que o conhecemos hoje.

Em 1908, a Assembléia japonesa criou uma lei que obrigava o aprendizado de kendô ou judô para todos os estudantes do ensino médio.

Em 1909, Kano tornou-se o primeiro membro japonês do Comitê Olímpico Internacional.

De 1910 a 1920, aos 60 anos, Kano aposentou-se como diretor da escola Normal Superior de Tóquio e então partiu para uma longa viagem através da Europa e dos Estados Unidos.
Em 1926, uma divisão feminina foi formalmente inaugurada no Kodokan. Kano costumava afirmar que: “Se você realmente quer entender o judô, observe as mulheres treinarem.” Talvez a maior discípula que Kano tenha tido foi Keiko Fukuda (nascida em 1914 e autora do livro “Nascida para o tatami”). Ela era neta do primeiro professor de Kano, Hachinosuke Fukuda.

Em 1927, Kano teve a oportunidade de visitar a cidade de Okinawa, onde pesquisou a cultura regional, inclusive o karatê.

Em 1929, o filósofo indiano e prêmio Nobel em 1913, Rabindranath Tagore (1861-1941), visitou a Kodokan e solicitou a Kano o envio de um instrutor para ensinar na universidade que ele estava construindo em Bombaim. O judô, o caminho suave, criou raízes entre hindus e até hoje é praticado na Índia.

 

 

O mestre Jigoro Kano descansa em paz

Os últimos 22 anos da vida de Jigoro Kano foram praticamente consumidos em constantes viagens em seu país e no exterior. Ele amava a vida. Apreciava a cozinha refinada e as boas bebidas do Oriente e do Ocidente.

Entusiástico calígrafo e tocador de shakuhachi, Kano patrocinava as artes tradicionais japonesas, especialmente as músicas e as danças clássicas.

Em 1938, ele foi a uma reunião do Comitê Olímpico Internacional, no Cairo, e conseguiu que as Olimpíadas de 1940, fossem agendadas para Tóquio. Infelizmente foram canceladas devido ao início da Segunda Guerra Mundial.

Na viagem de volta a Tóquio, a bordo do Hikawamaru, Kano ficou doente e acabou falecendo no dia 4 de maio de 1938, aos 78 anos.

A vida e os ensinamentos que Kano deixou a humanidade estão nas palavras que ele escreveu ao fundar a Kodokan:

“Os ensinamentos de uma pessoa virtuosa podem influenciar uma multidão, aquilo que foi bem aprendido por uma geração pode ser transmitido a outras cem.”

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
– LIVRO: Três mestres do Budo. John Stevens – editora: Cultrix
– LIVRO: Henji Tsu Tôo – Judô, O caminho suave. Editora hemus.
– SITE: Confederação Brasileira de Judô – http://cbj.dominiotemporario.com/
– SITE: Federação Internacional de Judô – http://www.ijf.org/
– SITE: União Panamericana de Judô – http://www.pju.org/
– SITE: Instituto Judô Kodokan – http://www.kodokan.org/

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